Uma questão de ética.
Valter de Oliveira
1.
Introdução
Depois de enfrentar dificuldades com o Congresso Nacional Lula conseguiu aprovar seu projeto de corrigir a tabela do Imposto de Renda (I.R.). Um problema: com isso o governo perderia receita. Solução? Cobrar mais dos mais ricos.
A proposta tinha um lado legítimo: acabar com o congelamento da tabela, pois os mais pobres e a classe média estavam sendo prejudicados. Quanto a isso todos concordaram. Afinal, como é sabido, o congelamento da tabela significava um roubo dos assalariados e pensionistas, que tinham desconto na fonte. Em suma, a correção era e é não só justa, mas também necessária. Aliás, a correção deveria ser automática, anualmente.
Já em 2018, em plena campanha eleitoral, Bolsonaro defendeu a correção. A Globo informou:
"Bolsonaro defendeu a proposta de seu principal assessor econômico, Paulo Guedes, que isenta do Imposto de Renda quem ganha até cinco salários mínimos. Pela proposta, para quem ganha acima disso, será colocada uma alíquota única de 20%.
"A proposta de Paulo Guedes do Imposto de Renda, eu até falei: "Você está sendo ousado". A proposta dele é a seguinte: quem ganha até cinco salários mínimos não paga imposto de renda. E, dalí para a frente, uma alíquota única de 20%", disse o presidenciável" (1).
Infelizmente tal reajuste não ocorreu. Pior para todos nós, assalariados e pensionistas. Nosso poder de compra continuou sendo corroído.
O que houve?
Pandemia? Obstáculos estruturais de nossa economia? Oposição e perseguição feroz que dificultou a governabilidade? Falhas do próprio governo? Muito foi discutido sobre isso. Talvez tema para outro artigo.
De qualquer maneira o que importa notar é que Lula, na campanha de 2022 percebeu que a promessa da correção da tabela do I.R. poderia favorecer sua campanha. Venceu. Por muito pouco.
Assumindo a Presidência, Lula procurou efetivar o que prometera. Complicado para ele porque nosso Estado é muito inchado, falta dinheiro para efetivar projetos. Ora, a correção da tabela provocaria uma perda superior a 20 bilhões de reais por ano. Como seu governo não quer cortar despesas a única alternativa seria taxar os mais ricos.
Depois de acordo com o Congresso a tabela foi corrigida. Tal como prometera: isenção para quem ganha até R$ 5.000,00. O Centrão e até a oposição bolsonarista aprovaram. Mesmo mantendo críticas que já existiam durante o trâmite do projeto. Todos consideraram que não era o ideal, mas já era um bom passo em favor da justiça tributária (2).
Bom lembrar que o marketing de Lula, de olho na eleição de 2026, apresenta a aprovação do projeto como um grande feito pessoal do presidente. É assim que está sendo apresentado e como vai aparecer durante a campanha eleitoral. Afinal, só Lulinha se preocupa com os pobres...
Nada honesto, não é mesmo?
Passemos para outro ponto.
2. O Piso Salarial Nacional dos Professores.
Cabe ao presidente da República, como estabelece a lei, estabelecer o piso salarial para professores das escolas municipais, estaduais e federais.
Devido aos crescentes gastos do governo, Lula pensou em dar ao professores um reajuste irrisório. A reação foi forte. Teve que retroceder. O que fêz? Editou uma Medida Provisória (MP 1.294/2025) reajustando em 5,4% o piso salarial do magistério para o ano de 2026. Com a medida o piso passou de R$ 4.867,77 para R$ 5.130, 63.
Aí começou o imbroglio.
Certos adversários do governo começaram a fazer posts afirmando que o governo petista, ao fazer isso, pouco ou nada ajudava os professores que ganhavam um pouco mais de R$ 5.000,00. O que dera com uma mão, retirava com a outra. Os professores estariam sendo enganados. Iriam pagar mais imposto de renda.
Verdade?
Desconfiei. Sempre foi dito que o congelamento da tabela do IR era prejudicial a aposentados e pensionistas. Assim, ainda que o reajuste aprovado não tenha coberto tudo o que foi perdido durante vários anos, o reajuste era razoável. Não fosse assim, como disse, não se compreende como até bolsonaristas tenham aprovado a medida.
Fiz várias pesquisas que demonstram que as postagens eram fake. (3) Na verdade, o projeto foi bom para quem ganha até R$ 5.000,00, razoável para quem ganha até 7 mil. Pouco ou nada vão ganhar os que recebem mais do que isso mensalmente. Por isso a proposta de Bolsonaro era muito melhor pois estabelecia que, em valores atuais, a isençao seria para quem ganha até R$ 7.590,00.
Fica a pergunta? Por que mentir sobre o adversário político?
Certamente porque quem inventa a notícia acredita que sua propagação desgasta o governo. Ora, como o governo é mau, desgastá-lo seria um bem.
Raciocínio de quem não tem nenhum compromisso com a ética.
A ética verdadeira não permite que se use a mentira para combater quem quer que seja. Quem assim age segue uma "ética" revolucionária pela qual a procura do poder ou sua manutenção é o mais importante. Agir assim é cair no maquiavelismo, no relativismo, ou na ética marxista que considera ético tudo o que favorece a vitória da causa socialista.
Sei perfeitamente que muita gente boa propagou a notícia. Certamente não perceberam. Viram que a notícia era contra a esquerda que acreditam que deve ser combatida e a compartilharam. Não perceberam que alguém, não inocente, os estava manipulando.
Quem defende a Doutrina Social da Igreja, como eu, sabe que em nenhuma circunstância devemos fazer uso da ética revolucionária, seja ela maquiavélica, nazista ou marxista. São simplesmente ideologias que se desvinculam da verdade e do bem.
Nosso compromisso deve ser com a verdade.
Sempre!
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Notas:
2. Artigos na Gazeta do Povo descrevem claramente as falhas do projeto apresentado por Lula mas reconheciam a necessidade e justiça do reajuste. Só um exemplo, de março de 2025, quando o projeto de descongelamento ainda não havia sido aprovado:
3. Exemplo de desmentido: https://meutudo.com.br/blog/noticias/2026/01/23/fato-ou-fake-imposto-vai-aumentar-para-professores-com-novo-piso-entenda/
O Estadão também desmente os fakes.






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